Título descontado: o erro fiscal que régua de cobrança genérica comete no Protheus
Título antecipado no banco continua com saldo no ERP. Régua de cobrança genérica lê "vencido" e dispara — cobrando de novo o que você já recebeu. Como identificar no Protheus e como tratar sem hardcode.
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Existe uma classe de erro que só aparece depois que você automatiza a cobrança. Antes, quando quem cobrava era uma pessoa olhando o relatório, ela não acontecia — porque a pessoa do financeiro sabia. Automatizou, o sistema não sabia, e o cliente recebeu uma cobrança de um dinheiro que já estava na sua conta.
É o caso do título descontado. Eu descobri do jeito ruim, e é por isso que esse texto existe.
O que acontece na prática
Você emitiu a duplicata. Precisou de caixa, levou um lote ao banco e antecipou. O banco adiantou o valor com desconto, e a partir daquele momento o recebível é do banco. Quem cobra é ele, no boleto dele, no vencimento original.
Do seu lado, o título não some do ERP. Ele continua lá, com saldo, com data de vencimento, com o
nome do cliente. Do ponto de vista de uma query ingênua — saldo > 0 e vencimento < hoje — ele é
idêntico a um inadimplente qualquer.
Aí entra a automação. A régua lê "em aberto e vencido", monta a mensagem e dispara:
"Olá! Identificamos um título em aberto no valor de R$ 3.480,00, vencido em 12/08. Segue o boleto para regularização."
Três coisas quebram ao mesmo tempo:
- Fiscal. Você está cobrando pela segunda vez um recebível que já foi liquidado por antecipação. Se a automação também emitir boleto, existem agora dois títulos de cobrança para a mesma duplicata — um seu e um do banco. Se o cliente pagar o seu, você recebeu duas vezes o mesmo valor, e alguém vai ter que desfazer isso com nota de crédito, devolução ou acerto manual.
- Comercial. O cliente liga bravo para o vendedor, que não fazia ideia. O vendedor liga para o financeiro. Todo mundo perde meia hora, e a relação leva um arranhão que não estava no orçamento.
- Confiança. Depois de uma cobrança errada, o cliente passa a conferir todas. A régua, que existia para reduzir atrito, virou fonte de atrito.
Onde o Protheus guarda essa informação
No SIGAFIN, cada título do contas a receber (tabela SE1) carrega um campo de situação de
cobrança: E1_SITUACA.
O erro mais comum — e eu cometi — é tratar esse campo como um enum fixo da TOTVS e escrever no
código algo como "se E1_SITUACA = '2' então é descontado, pula".
E1_SITUACA não é uma lista fixa. É o código de uma situação cadastrada pela empresa na
tabela FRV (Situação de Cobrança). Cada implantação tem as suas. O que define o comportamento
financeiro não é o número, são as flags do cadastro:
| Campo FRV | Significa |
|---|---|
FRV_DESCON | Título descontado — antecipado no banco. A empresa já recebeu. |
FRV_JURIDC | Situação judicial. |
FRV_PROTES | Situação de protesto cartorial. |
FRV_BLQMOV | A situação bloqueia movimentação do título. |
FRV_BANCO | A situação usa banco (borderô/remessa). |
Na Ducoprint — a distribuidora onde o Seiva nasceu e onde eu apanho desse assunto todo dia — os
títulos aparecem com situações F, 5, 4, 0, 1, 2 e K. O 2 é descontado: isso está
confirmado. O significado de F, 5, 4 e 0 ninguém sabe olhando o número: só lendo a FRV
daquela empresa. E o K é um código especial de PIX.
Ou seja: qualquer ferramenta que promete "régua de cobrança integrada ao Protheus" e hardcoda o
valor 2 está certa por acidente em algumas empresas e errada nas outras. E o erro é silencioso —
ninguém recebe um alerta dizendo "cobrei indevidamente".
Como identificar isso na sua operação hoje
Três perguntas, nessa ordem. Nenhuma exige comprar nada.
1. Sua empresa desconta duplicata? Pergunte ao financeiro se existe borderô de desconto com algum banco. Se a resposta for sim, você tem títulos nessa condição agora.
2. Quais situações existem nos seus títulos em aberto? Peça ao TI a lista dos títulos em aberto
agrupada por E1_SITUACA, com contagem e soma de saldo. É uma consulta de uma linha. O
resultado costuma surpreender: aparecem códigos que ninguém no comercial sabia que existiam.
3. O que cada código quer dizer? Abra a FRV (a tabela de situações de cobrança, no cadastro do SIGAFIN) e confira as flags de cada código que apareceu no passo 2. Esse é o único mapa confiável.
Com esses três passos você consegue responder à pergunta que interessa: do total que o seu painel chama de "a receber", quanto já entrou via antecipação? Em operação que desconta com frequência, essa diferença muda a leitura do fluxo de caixa — e muda o que a régua tem o direito de disparar.
Como o Seiva trata
Duas decisões, ambas nascidas de errar antes.
A primeira: a flag manda, não o número. A elegibilidade de cobrança consulta o espelho da FRV do próprio cliente. Se a situação daquele título está marcada como descontada, judicial ou bloqueadora de movimentação, o título não é cobrável — e o motivo fica registrado no log com o nome da flag que barrou, não com um código solto. Enquanto a FRV de um cliente ainda não está sincronizada, existe um mapa de fallback configurável por empresa, com padrão conservador: situação desconhecida não cobra. Errar para o lado de não incomodar o cliente é barato; errar para o outro lado não é.
A segunda: descontado sai da conta, mas não some da tela. No cálculo de limite, saldo devedor e aging, os títulos descontados ficam de fora — eles não são dívida do cliente com você. Mas o valor aparece separado, rotulado como descontado, na ficha do cliente. Isso existe por um motivo prático: sem esse número visível, o vendedor abre a ficha, vê que "sumiu" um título que ele lembra que existia, e desconfia do sistema. Dado escondido gera boato interno; dado rotulado gera confiança.
O resumo para levar
- Título descontado continua no ERP com saldo e é indistinguível de inadimplente para uma query ingênua.
- No Protheus a verdade está nas flags da FRV, não no valor de
E1_SITUACA— que é cadastrado por empresa. - Cobrar título descontado é erro fiscal e comercial ao mesmo tempo, e falha em silêncio.
- O teste custa dez minutos: listar títulos em aberto agrupados por situação e conferir cada código na FRV.
Se você automatizou cobrança nos últimos meses e nunca fez esse teste, faça essa semana. E se quiser discutir o caso da sua operação, o formulário logo abaixo cai direto comigo — esse é o tipo de conversa que eu gosto de ter.